quinta-feira, 21 de junho de 2018

Detroit: Become Human – mais do que uma história de Inteligência Artificial



Quando a Quantic Dreams lançou o curta intitulado como Kara em 2012 eu já imaginei que um jogo inesquecível estava por vir. Seis anos depois, Detroit: Become Human foi lançado para Playstation 4, provando esse palpite estava certo. Nessa análise falaremos mais sobre o mundo criado por David Cage e Adam Williams.



Sinopse

Em um futuro próximo, a humanidade vive ao lado de androides perfeitamente parecido com seres humanos que desempenham diversas tarefas para os humanos. No entanto o panorama começa a mudar quando androides denominados “divergentes” passam a ter consciência, sentimentos e lutar pela liberdade e direitos iguais.



Outra história sobre inteligências artificiais?

Detorit: Become Human se passa em um futuro próximo (2038) onde uma empresa chamada Cyberlife conseguiu criar androides perfeitos extremamente parecido com seres humanos designados para servir seus donos sem questionar. Existem androides para cada tipo de função na sociedade, desde cuidar da casa como até prazer sexual. Em outras palavras, uma utopia futurista explorando a Inteligência Artificial. Naturalmente, já existem uma gama de histórias explorando essa mesma temática no cinema, nos jogos, no teatro ou na literatura.


Muitas coisas em Detroit: Become Human se assemelha com outras obras com o mesmo tema. A alta taxa de desemprego é uma delas. É natural que com o avanço da ciência o desemprego surja. Nesse jogo o desemprego é avassalador, visto que os androides são superiores aos seres humanos e bem mais obedientes. Isso faz com que muitas pessoas desenvolvam um ódio aos androides, que falaremos mais pra frente.



Outro fator que impacta diretamente foi no crescimento demográfico da sociedade que passou a se reproduzir menos. Os humanos passaram a preferir se relacionar com seus andróides do que com outros seres humanos diminuindo a taxa de natalidade nos Estados Unidos.

A sociedade imaginada pela Quantic Dreams, apesar de futurista é até bem realista. De fato, vemos veículos que se movem sozinhos ou coisas parecidas, mas nada muito surreal. A tecnologia presente no game é bem crível e ao mesmo tempo surpreende.

O ódio, preconceito e liberdade


Detroit: Become Human se diferencia das demais histórias do gênero por sua perspectiva diferente. Ao invés de trabalhar no ponto de vista da humanidade sendo afetada pelos avanços tecnológicos, David Cage preferiu abordar a perspectiva dos andróides, quase como se fossem humanos (ou mais humanos que os próprios seres humanos).

A temática de Inteligência artificial é um pano de fundo para explorar o egoísmo da própria raça humana diante de outro ser inteligente. Esse é o grande “e se” que o jogo traz. E se as máquinas criadas pela humanidade resolverem ser reconhecidos como uma forma de vida? Em Detroit podemos tomar tanto o caminho da violência como o caminho da paz para alcançar esse objetivo. Em todo caso, não se trata de seres humanos lutando pela sua sobrevivência frente a uma ameaça, mas de outra forma de vida inteligente lutando por dignidade em uma sociedade egoísta e possessiva.

No mundo criado por Cage, vemos um grupo de pessoas sem esperança de futuro e cheios de ódios contra androides, ou por terem perdido seu emprego ou por acreditarem que eles são o mal da civilização. Conforme a história segue, alguns passam a nutrir ainda mais esse ódio por se recusarem a pensar nos androides como se fossem algo mais além de suas propriedades. Por pensarem assim, muitos humanos tratam seus andróides como lixo, ferindo-os e maltratando-os por pura diversão, forçando seu sistema a se rebelarem.


Um paralelo ao sistema escravista e à guerra civil norte-americana

Diante de toda essa questão de liberdade e dignidade, é impossível não traçar um paralelo à guerra civil norte-americana e ao fim do sistema escravista na sociedade. Afinal, estamos falando de seres humanos tratando outros semelhantes como propriedades e se recusando a dar a eles direitos iguais. Toda a história de andorid: Become human fala sobre uma luta por liberdade de um regime escravista.

Assim como falei no artigo sobre Mudbound, o local onde se passa a história foi muito bem escolhido. Detroit foi uma cidade importante durante a Guerra civil norte-americana onde ocorreram algumas manifestações e lutas impactantes na década de 60. Além disso, muitos escravos atravessavam o rio Detroit para fugir para o Canadá durante a guerra. O jogo se passar em Detroit não é mera coincidência. Tanto que um dos personagens, Kara, está tentando ir para o Canadá com sua “filha” após salvá-la de um pai violento e drogado.

Além disso há várias referências à escravidão nos estados Unidos do século XIX e XX. Os ônibus, por exemplo tem áreas dividias para androides e humanos, assim como existiam áreas divididas para negros e brancos e inclusive leis que proibiam o relacionamento inter-racial nos anos após a libertação dos escravos. O ódio aos androides também não é muito diferente do que vemos até hoje em algumas partes do mundo. Até mesmo nos protestos pela liberdade vemos referência a luta dos negros norte-americanos ou discursos semelhantes ao de grandes lideres do passado como Martin Luther King jr ou Malcon X.


Escolhas e impacto

É de se esperar que um jogo dos mesmos criadores de “Heavy Rain” tenha um sistema onde cada escolha importa. Dentro desse panorama as escolhas do jogador influenciam diretamente na história e no resultado da trama. As histórias dos diferentes protagonistas estão interligadas indiretamente. O que você faz com Markus pode garantir que Kara atravesse ou não a fronteira e a investigação de Connor pode ou não prejudicar a luta de Markus. Do mesmo modo, se você resolver assaltar uma loja com Kara, mesmo que para sobrevivência, a opinião publica quanto aos androides cairá e prejudicará a luta de Markus.

Cada escolha que o jogador faz, mesmo que pareça insignificante garante uma experiência diferente. Tanto em âmbito geral, como nos personagens secundários. Existe até a possibilidade de um personagem próximo a um dos protagonistas morra, ame-o ou odeie ele de acordo com nossas decisões. Isso deixa a experiência de cada jogador única e exclusiva ao mesmo tempo que deixa cada decisão impactante.



Positivo ou negativo? 

Apesar de ser um jogo maravilhoso, Não posso deixar de me questionar se ter inúmeras possibilidades e vertentes de uma história é algo positivo ou negativo em uma narrativa. O jogo tem tantas variações que pode se tornar uma bagunça e, dependendo da escolha do jogador,  até caminhar para uma experiência frustrante. Há também o fato de que com tantas vertentes, a mensagem da história se perde. Ou melhor, diferentes perspectivas e mensagens diferentes podem vir à tona. Se a história que segui falou sobre a importância da liberdade, outra pode demonstrar o perigo da tecnologia. 

Por mais incrível que seja o fato do jogo permitir toda essa gama de variações, não passa uma mensagem única de fato. E se não for para passar uma mensagem, de que vale a narrativa. De fato, independente do caminho trilhado, a trama nos prende de tal modo que não podemos largar. Contudo, se jogarmos novamente teremos a impressão de ser uma trama completamente diferente. O jogo em si não tem uma mensagem clara e definida e isso é algo negativo, mesmo se tratando de um dos melhores trabalhos que ja vi na industria dos games.


Um mundo amplo
Ao longo do game também é possível entender o impacto de nossas escolhas no mundo inteiro através de elementos extras como telejornais ou revistas espalhadas pelo cenário. Há uma guerra prestes a acontecer entre os Estados Unidos e a Russia por causa de uma exploração no pólo sul em que ambos os países estão interessados. Os eventos que ocorrem no game têm influência indireta nesse conflito e podemos perceber o resultado de nossas ações através desses elementos extras.

A opinião pública muda em relação à nossa luta dependendo do que fazemos. Outros países do mundo também mudam suas políticas sobre a aceitação de androides em seu território por estarem de olho com o que acontece nos Estados Unidos.


Os esportes discutem a possibilidade de ter Androides em seus times e novas regas passam a valer nos campeonatos. Bordeis oferecem experiências sexuais com Andróides e isso impacta na taxa de natalidade. Pessoas perderam seus empregos pelo avanço econômico e outras fizeram ainda mais dinheiro tornando a desigualdade no mundo ainda maior.

O mundo criado por Kage é muito maior do que o que vemos no jogo, mas podemos ter pistas do que acontece no mundo todo através de elementos na cena e na exploração dos cenários

Detroit: Become Human é uma experiência única e exclusiva para cada jogador. O jogo não se prende a ser mais uma história sobre inteligência artificial, mas vai além, explorando o egoísmo do ser humano e falando sobre liberdade, igualdade e dignidade. Mesmo sendo um mundo futurista e sci-fi, a história de Detroit Become Human consegue trazer um debate atual e real em nossa sociedade: o direito de se tornar um ser humano. Ou melhor, ele define o que é ser um ser humano.

Detroit Become Human é um jogo exclusivo para Playstation 4 desenvolvido pela Quantic Dreams e dos mesmos criadores de Heavy Rain. Um forte candidato a jogo do ano.


Abaixo segue o curta "Kara" lançado pela Quantic Dreams em 2012





3 comentários:

  1. Esse jogo é pra jogar ou pra assistir?

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    1. Pior que é pra assistir ahuahuahau
      É um filme interativo (ou drama interativo). Um estilo que até vem começando a ganhar espaço ultimamento. Você praticamente assiste um filme podendo tomar algumas decisões ou interferir na história.

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    2. Ah. E obrigado pelo comentário! :D

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